D3 - Pe. Alderígi, homem da simplicidade e da pobreza (1949 - 1951)
Crônica de Frei Felipinho Gabriel Alves, O.F.M
O Pe. Alderígi, no começo era muito energético com seus sobrinhos. Era o rigorismo da época, exigindo sempre responsabilidade e reclamando deles total exemplo em tudo. "Como eu morava em Muzambinho, MG - exemplificou o sobrinho dele, Benedito Galvão Matins (1940) - todas as férias, durante os 3 meses, ficávamos em Santa Rita de Caldas. Toda a tarde havia catecismo e eu sempre o freqüentava. Lá um dia, a catequista foi contar ao Tio Padre que eu estava bagunçando. Meu Deus! Meu tio veio em cima de mim, com aquela mãozona de gigante, estalou aquele tapa. No mesmo instante, tomado de raiva, revidei mandando-o para o último lugar. Aí, ele correu para me pegar e eu corri mais rápido do que ele e ele acabou contando tudo para o meu pai. Realmente ele era terrível para bater em seus sobrinhos. Não que fosse mau. Era o jeito da época que ele, pouco a pouco, teve de superar, até tornar-se o vovô mais querido das crianças.
Se era rigoroso na educação dos seus sobrinhos, o era mais ainda consigo mesmo, quanto à pobreza. Lá por 1951, os paroquianos sensibilizados com as caminhadas sem fim pelas roças e capelas, resolveram fazer-lhe uma surpresa: Ajuntaram verbas, compraram um jeep verde e lhe ofereceram no dia de seu aniversário. O Padre, em vez de ficar contente, deu aquela bronca solene:
- Jesus andava a pé, fazendo longas caminhadas e eu já ando a cavalo! Não. Não posso aceitar esse carro.
- Agora, o jeep está comprado. Que vamos fazer com ele?
- Vende-se e com dinheiro vamos reformar a igreja matriz!
E a nossa igreja se transformou, recebendo nova pintura e surgiram os belos quadros da vida de nossa padroeira.
Mais tarde, a família dele resolveu dar-lhe dinheiro,com a finalidade de ele comprar uma nova batina, pois a que usava estava uma vergonha, mostrando seus remendos e sua cor desbotada para qualquer um. Entregaram dinheiro para a batina nova e ele, sempre com a velha. Perguntando-lhe sobre o motivo do atraso, sempre vinha com evasivas, até que um dia o apertaram e reclamaram explicação mais clara. Aí ele não teve saída e confessou, meio sem graça, meio zangado:
- Eu não preciso duma outra batina. Eu não estou pelado.
- E o dinheiro que lhe demos? Que fez com ele?
- É. Esse eu tive que dar para uma pobre velha.
CONTRIBUIÇÃO: Benedito Galvão Martins (1940),advogado e sobrinho do Pe. Alderígi. * Entrevista em 03.08.87 * Rua São João da Boa Vista, 46 # Fone: (035) 721-3488 * 37.700 Poços de Caldas - MG.